A pesquisadora Tania Cantrell Rosas-Moreno traz neste volume uma detalhada investigação da presença da intertextualidade das principais notícias do Brasil encontradas nas telenovelas nacionais, incluindo uma ampla bibliografia de consulta e dados que apoiam os diversos debates sobre a construção da identidade imaginada pela mídia nacional. A autora revê a criação das redes jornalísticas e televisivas brasileiras durante os governos dos anos 50 e 60, projetando a partir daí as mais recentes tendências que vêm ditando a trajetória da cultura e do comportamento da sociedade dentro do universo das telenovelas, algo visto como sendo a educação das massas por meio do entretenimento.
Em sua justificativa sobre o tema selecionado, Rosas-Moreno ressalta a existência de diversos estudos similares ao seu, que focalizam nas relações entre política, noticiários de televisão e telenovelas (62). Entretanto, em News and Novela in Brazilian Media os principais acontecimentos relatados em revistas de alta circulação no país são posicionados vis-à-vis a ficção retratada em telenovelas, ou seja, a relação e a intertextualidade da notícia escrita encontrada nos folhetins televisivos das 20:00h. O trabalho reflete o desenvolvimento de diversos temas no confronto da realidade com a ficção, utilizando para isso dados recolhidos em um mesmo período—o ano de 2007—em amostras das revistas Veja e Veja-Rio, do Grupo Abril, e a telenovela de Aguinaldo Silva, Duas caras, apresentada pela Rede Globo de Televisão. Por um lado, podemos considerar este estudo restrito, e até mesmo tendencioso, uma vez que focaliza apenas nos dois principais grupos midiáticos nacionais (Rede Globo e Editora Abril). Entretanto, tal questão não chega a desmerecer a validade da pesquisa, uma vez que reflete e confirma as restrições encontradas no meio jornalístico que, independente de sua tiragem, não é totalmente capaz de promover um diálogo com a sociedade com a mesma eficácia da ficção. Diante disto, transfere-se para a popularidade das telenovelas, a expansão e discussão aberta de problemas polêmicos, tais como a discriminação racial, a homossexualidade, a falta de segurança, a desigualdade racial e social, HIV-AIDS, aborto e tantos outros temas ainda considerados tabus na sociedade mais conservadora. A escolha desta telenovela também é justificada por retratar dois aspectos inovadores ao gênero: inicialmente, o primeiro galã afro-brasileiro, que concorre e vence as eleições municipais (Evilásio Caó dos Santos, representado por Lázaro Ramos); e em segundo lugar, o retrato de uma favela “modelo” no Rio de Janeiro, Portelinha, o epicentro do enredo (121), com uma acentuada atribuição de seus aspectos positivos, tanto em termos de lugar como de seus moradores.
Como a autora aponta, este tema de pesquisa tem sido amplamente investigado ao se buscar possíveis respostas a várias questões relacionadas com o comportamento social nacional. Em muitas ocasiões, o estudo reflete as nuanças jornalísticas que se entrelaçam com as tramas da ficção, trazendo à tona aspectos e práticas históricas conflituosas com o papel conservador e alienador que se impuseram por anos na comunicação em massa brasileira. Sob este prisma, o argumento do livro focaliza a falácia da democracia racial, a qual é reavaliada pelo princípio de que “a democracia brasileira é muito mais social do que racial” (63, 104). Rosas-Moreno apoia-se na premissa de que a maioria das telenovelas brasileiras refletem na ficção os temas mais polêmicos e que têm merecido destaque na mídia jornalística, possibilitando um maior—e indiscriminado—diálogo com as diversas classes sociais que assistem diariamente às mesmas. Segundo a autora, a tendência da Rede Globo de Televisão de proporcionar um fórum de discussão dos principais problemas sociais brasileiros em sua novela das 8 da noite (71), teria surgido já no período militar, como visto no impacto da censura imposta a Roque Santeiro (30–31). Ao remontar a tal passado o estudo comenta sobre a linha tênue que separa a ficção da realidade, cuja problematização culminou durante De corpo e alma (1992), com o brutal assassinato da atriz Daniella Perez, cometido pelo ator com quem formava um par romântico na novela (30). Somando-se a isso, surge a tendência dos últimos anos, com o crescimento do número de leitores brasileiros de revistas e jornais, em particular de Veja, a revista com a quarta maior tiragem no mundo (40).
Os três primeiros capítulos do livro—“Dynamics of Fact and Fiction and a Rising Power,” “News and Novela Media in Brazil” e “The Media and the Approach”—focalizam no processo histórico pelo qual a sociedade e a mídia brasileiras caminharam até vencerem a censura e a repressão ideológica dos anos de chumbo, procurando firmar o novo Brasil imaginado, como uma democracia, tanto política como social. Nos capítulos de quatro a sete, encontra-se o âmago do estudo, com detalhada análise do microcosmo representado em Portelinha, esboçando tensões raciais, políticas, religiosas e de gênero. A autora também inclui tabelas e gráficos comparatórios, com estatísticas e dados recolhidos no período, ilustrando e endossando a tese proposta. Em sua investigação, Rosas-Moreno se mantém longe dos dramas de folhetim e das curiosidades que marcam a popularidade do gênero, avaliando apenas os aspectos conflituosos da identidade brasileira encontrados nas sublinhas das notícias mais relevantes.
O capítulo quatro, “Race and Class Representations as Indicators of Brazilian Media Opening,” gera particular interesse por tratar das questões raciais e de representação de classes, tendo como base a percepção do que significa ser brasileiro para os moradores das favelas. Todos os temas apresentados convergem à problematização da democracia racial versus social, salientando-se estigmas voltados ao embranquecimento e à marginalização de pessoas e de lugares que ainda mantêm vínculos com raízes africanas, tais como a religião e os casamentos inter-raciais. As representações de raça e sociedade em Portelinha e arredores vem revestida de um jogo binário de olhares discriminatórios versus conciliatórios, oferecendo soluções e um “final feliz” que as notícias diárias não são capazes de retratar.
Destaca-se ainda na pesquisa o capítulo sete, “Female Leaders’ Portrayals among Brazilian Media,” cuja análise examina o avanço das mulheres—especialmente registrado no meio jornalístico do país—em posições de liderança política e social. Em Duas caras, a representação do poder feminino é concentrada em Gioconda (personagem representada pela atriz Marília Pêra), uma mistura da socialite Carmen Mayrink Veiga, símbolo da alta sociedade carioca (106), com Kátia Abreu, senadora eleita pelo estado de Tocantins (109). As evidências registradas nas notícias da época—como a nominação de Dilma Rousseff como primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente da República, assim como a fama internacional da super modelo Giselle Bündchen—sugerem que a ascensão das mulheres brasileiras no mundo dos negócios em geral possa ser um possível caminho para o país atingir a desejada democracia racial (111). Neste mesmo contexto, estaria sob a liderança feminina a quebra de tabus fomentados há séculos por uma sociedade tradicionalmente patriarcal.
A conclusão do livro retoma cuidadosamente a abordagem de cada capítulo e a tese formulada, tornando-se uma leitura imprescindível para brasilianistas—e até mesmo para leigos—que buscam revisitar a relação da mídia brasileira com as telenovelas, assim como um novo olhar às perspectivas oferecidas, relacionadas com a identidade nacional.






