Religião, violência, e resistência histórica em Cidade de Deus

Rob Lassche

Abstract

Embora um dos filmes mais estudados do cinema brasileiro, pouco tem sido escrito sobre a questão da religiosidade em Cidade de Deus. Neste artigo, parto da leitura de uma cena transformadora, na qual o traficante Zé Pequeno encontra com um umbandista que incorpora Exu, em diálogo com a representação da violência na produção. Zé Pequeno consegue brevemente reinar no bairro da Cidade de Deus de uma forma que se opõe epistemologicamente ao Estado brasileiro. Dentro da necropolítica, o cinema frequentemente acaba tendo o papel de produto e propagador das lógicas da morte, ao apropriar-se dos afetos, tendência rejeitada neste longa-metragem. Encarei este filme com a consideração de que a arte pode ser um meio para abrir um debate frequentemente subexposto—o da demonização das religiões afro-brasileiras como parte do racismo institucionalizado, juntamente com a violência de mão dupla que resulta desta. Portanto, argumento que os papéis de Zé Pequeno e Exu juntamente com a reapropriação dos afetos durante as cenas de violência em Cidade de Deus articulam uma resistência histórica à violência contra a população afro-brasileira e suas práticas religiosas.

Although one of the most studied films in Brazilian cinema, little has been written on the issue of religiosity in City of God. In this article, I start from the reading of a transformative scene in which the trafficker Zé Pequeno has an encounter with an Umbanda practitioner who incorporates Exu, in dialogue with the representation of violence in the production. Zé Pequeno manages to briefly reign over the community of City of God in such a way that it opposes itself epistemologically to the Brazilian State. Within necropolitics, film often has the role of product and propagator of the logics of death, as it appropriates affects, a tendency that is rejected in this feature. I examined this film with the consideration that art can be a means to open a debate that is frequently underexposed—that of the demonization of Afro-Brazilian religions as part of institutionalized racism, along with the two-way violence it causes. Thus, I argue that the roles of Zé Pequeno and Exu along with the reappropriation of affects during the scenes of violence in City of God articulate a historical resistance to the violence against the Afro-Brazilian population and its religious practices.

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Resumo

Abstract

Embora um dos filmes mais estudados do cinema brasileiro, pouco tem sido escrito sobre a questão da religiosidade em Cidade de Deus. Neste artigo, parto da leitura de uma cena transformadora, na qual o traficante Zé Pequeno encontra com um umbandista que incorpora Exu, em diálogo com a representação da violência na produção. Zé Pequeno consegue brevemente reinar no bairro da Cidade de Deus de uma forma que se opõe epistemologicamente ao Estado brasileiro. Dentro da necropolítica, o cinema frequentemente acaba tendo o papel de produto e propagador das lógicas da morte, ao apropriar-se dos afetos, tendência rejeitada neste longa-metragem. Encarei este filme com a consideração de que a arte pode ser um meio para abrir um debate frequentemente subexposto—o da demonização das religiões afro-brasileiras como parte do racismo institucionalizado, juntamente com a violência de mão dupla que resulta desta. Portanto, argumento que os papéis de Zé Pequeno e Exu juntamente com a reapropriação dos afetos durante as cenas de violência em Cidade de Deus articulam uma resistência histórica à violência contra a população afro-brasileira e suas práticas religiosas.

Although one of the most studied films in Brazilian cinema, little has been written on the issue of religiosity in City of God. In this article, I start from the reading of a transformative scene in which the trafficker Zé Pequeno has an encounter with an Umbanda practitioner who incorporates Exu, in dialogue with the representation of violence in the production. Zé Pequeno manages to briefly reign over the community of City of God in such a way that it opposes itself epistemologically to the Brazilian State. Within necropolitics, film often has the role of product and propagator of the logics of death, as it appropriates affects, a tendency that is rejected in this feature. I examined this film with the consideration that art can be a means to open a debate that is frequently underexposed—that of the demonization of Afro-Brazilian religions as part of institutionalized racism, along with the two-way violence it causes. Thus, I argue that the roles of Zé Pequeno and Exu along with the reappropriation of affects during the scenes of violence in City of God articulate a historical resistance to the violence against the Afro-Brazilian population and its religious practices.

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